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Autor raiz X escritor conectado



Em meio aos diversos debates atuais sobre a auto publicação, há uma questão cada vez mais relevante relacionada ao que significa ser um escritor e sua conexão com a autoria. Com o grande número de novos autores lançando seus originais em todas as direções e a maioria deles sonhando com o reconhecimento por uma vida dedicada à escrita e aos direitos autorais, é necessário refletir sobre o assunto.

Charles Kiefer, em uma tentativa de delimitar o tema, optou por distinguir autor de escritor. Em seu livro "Para ser escritor" (LeYa), ele define autor como sendo o ex-escritor encantado com a possibilidade de uma carreira literária. Já o escritor "autêntico" é aquele que se dedica especificamente à sua criação artística, não se deixando levar pelo mercado e arriscando soluções cada vez mais criativas e audaciosas em seus novos textos.

A escolha do renomado mestre Charles, professor e talentoso escritor, é, sem dúvida, curiosa. Imagino que, entre as dezenas ou até centenas de obras que abordam o tema de ser um escritor, haja outras definições igualmente interessantes e curiosas.

No entanto, vou me ater ao que nos exige uma resposta mais eficaz para separar esses conceitos. É necessário, em primeiro lugar, distinguir o que é ficção do que não é. Simples assim. Uma vez feita essa separação, a mesma pessoa pode assumir diferentes personas, sendo que uma delas, bastante simplificada, seria seguir o exemplo de Kiefer e diferenciar o autor do escritor com base no compromisso com a arte literária, em um profundo diálogo com a linguagem e a forma.

Portanto, atribuir-se apenas o termo de autor implica estar mais preocupado em transmitir uma mensagem adiante, sem se importar tanto com o aprimoramento formal e estilístico do que foi escrito. Isso é especialmente válido para a grande maioria dos autores em seu primeiro livro. Já para se autodenominar escritor, é necessário revisar e polir o texto até o limite, um processo que pode levar anos, talvez até uma vida inteira, para decidir entre uma vírgula ou um ponto, ou escolher a palavra mais adequada para qualquer frase.

Vale observar o caso de nosso querido e premiado Raduan Nassar, autor de "Lavoura Arcaica" e "Um copo de cólera", que, depois de encontrar a fórmula para seus livros, abandonou a escrita após produzir poucos, porém excelentes, títulos. É possível que Raduan retorne a escrever com a mesma dedicação de suas obras anteriores, mas esse cuidado, essa preocupação com a arte da escrita, está presente naqueles que se propõem a escrever como uma forma de arte, mesmo que talvez nunca publiquem sua obra. Fora desse contexto, fora dessa preocupação, resta apenas o autor comum, que não é menos importante.

É claro que esse tipo de autor comum não é tão comum assim. Seria injusto colocar Euclides da Cunha, Darcy Ribeiro, Antônio Candido, Alfredo Bosi, Gilberto Freyre e outros bons escritores em uma categoria de autores desprovidos de preocupação formal e artística. No entanto, para fins didáticos, é importante considerar até onde o livro publicado levará seu autor. Essa preocupação se aplica a tantos que disponibilizam seus textos em formatos digitais e se sacrificam com baixas tiragens de exemplares, autodenominando-se escritores, mas cuja fraqueza textual e falta de conhecimento do gênero em que se dedicam são perceptíveis logo na primeira leitura. Isso é prejudicial à literatura e merece um julgamento sumário, com a pena do completo esquecimento por parte dos leitores e do mercado editorial.



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